Vibecoding
Código que ninguém entende já é dívida, mesmo funcionando
A régua mais usada é se funciona. É a régua errada. Existe código funcionando perfeitamente que já custa caro, e o custo aparece na velocidade de tudo que vem depois.
A pergunta padrão para avaliar código é: funciona?
É a régua mais usada e a mais incompleta que existe.
Tem código funcionando perfeitamente há dois anos que já está cobrando caro. E ninguém percebe porque o boleto não vem com nome de dívida.
Onde o custo aparece
Não na execução. O código roda igual, entendido ou não. A máquina não se importa.
O custo aparece em tudo que acontece perto dele:
Uma mudança de dez minutos vira duas horas porque você precisa primeiro entender o que aquilo faz.
Ninguém quer mexer, então cada nova funcionalidade contorna o trecho em vez de usar. E aí você tem duas formas de fazer a mesma coisa, e depois três.
Bug naquela região demora o triplo pra achar.
Pessoa nova leva semanas a mais pra ficar produtiva, porque tem uma parte do sistema que é território proibido.
Nada disso aparece num relatório. Aparece como "as coisas estão mais lentas ultimamente".
O sinal mais confiável
Não é técnico. É comportamental.
Quando a solução escolhida é contornar em vez de alterar, aquele ponto já é dívida.
Se alguém propõe uma mudança e a resposta é "melhor não mexer ali, faz por fora", pronto. O sistema tem uma zona morta, e ela cresce, porque cada contorno adiciona código novo em volta do problema em vez de resolvê-lo.
Por que isso piora com IA
Por uma razão de ritmo.
A geração ficou mais rápida que a leitura. Você recebe em segundos o que levaria uma tarde pra escrever, e continua levando o mesmo tempo pra ler.
Se o ritmo de aceitar for maior que o de entender, o estoque de código não compreendido cresce sozinho, todo dia, sem ninguém decidir.
É o erro que sai mais caro, visto pelo lado do acúmulo em vez do lado da decisão individual.
A régua melhor
Troca "funciona?" por três perguntas:
Eu consigo explicar o que isso faz? Em uma frase, sem reler três vezes.
Eu sei o que quebra se eu mudar? O alcance da alteração.
Eu conseguiria consertar isso às 3 da manhã? Sob pressão, sem tempo de estudar.
Se a resposta das três for sim, é código saudável, mesmo feio.
Se for não, é dívida, mesmo bonito.
O que fazer com o estoque acumulado
Não precisa entender tudo. Seria caro e a maior parte não compensa.
Prioriza por dois critérios:
O que você toca com frequência. Se você mexe ali todo mês, entender paga rápido.
O que lida com dinheiro ou dado sensível. Ali o custo do erro é alto demais pra operar no escuro.
O resto pode esperar até aparecer no seu caminho. Aí você entende antes de mexer, e o entendimento chega junto com a necessidade.
O método pra isso está em descobrir o que uma parte do código faz.
O que isso não é
Não é defender que você precise entender cada linha de cada biblioteca. Ninguém entende a fundo tudo que usa, e não é isso.
É sobre o código do seu sistema, o que leva o seu nome e que você vai ter que consertar. Nesse, não entender é uma posição frágil disfarçada de produtividade.
Funcionar é o mínimo. Não é a prova.
A decisão é sua.
Perguntas frequentes
Perguntas rápidas
+Se funciona, por que seria dívida?
Porque o custo não está na execução, está na manutenção. Código não entendido torna toda mudança próxima mais lenta e arriscada, e essa lentidão é paga todo mês independentemente de o sistema estar rodando bem.
+Como identificar esse tipo de dívida?
Procurando os trechos que ninguém quer tocar. O sinal mais confiável é comportamental: quando a solução escolhida é contornar em vez de alterar, aquele ponto já é dívida.
+Por que isso piora com IA?
Porque a geração de código passou a ser mais rápida que a leitura. Se o ritmo de aceitar for maior que o de entender, o estoque de código não compreendido cresce sozinho.
+O que fazer com o que já está acumulado?
Não é preciso entender tudo. Priorize o que é tocado com frequência e o que lida com dado sensível ou dinheiro, e trate o resto quando ele aparecer no caminho.
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